A entrega da Comenda Abdias Nascimento pelo Senado, nesta quinta-feira (24/11), foi marcada por protestos de representantes do movimento negro contra a PEC do Teto dos Gastos Públicos (PEC 55/2016) e outras ações do governo Temer que estariam desmantelando conquistas sociais e econômicas da população afrodescendente. Idealizadora da iniciativa da homenagem, juntamente com o senador Paulo Paim (PT-RS), que atualmente preside o Conselho da Comenda, a senadora Lídice da Mata (PSB-BA) chamou a atenção para a recente ruptura de políticas públicas pactuadas com o movimento negro brasileiro. Já o senador Paim, por sua vez, ressaltou que a consciência negra tem como preceito a liberdade e como pré-requisito políticas de igualdade.
Essa é a terceira edição da premiação, entregue a personalidades que se destacam na proteção e promoção da cultura afro-brasileira. A Comenda Senador Abdias Nascimento leva o nome de um negro que liderou projetos pioneiros na luta pela igualdade racial, como o Teatro Experimental do Negro e o jornal Quilombo, e que passou 13 anos de sua vida no exílio após a edição do Ato Institucional nº 5 pelo regime militar (1968). Nascimento também foi um dos principais idealizadores do Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro.
Entre os homenageados, estava o cantor e compositor baiano, Lazzo Matumbi, por indicação da própria senadora baiana. Também receberam a Comenda Senador Abdias do Nascimento o Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (Imune); a atriz Zezé Motta; e o percussionista Naná Vasconcelos (in memoriam). O ator Lázaro Ramos também foi indicado, mas declinou de participar da homenagem.
A senadora Lídice da Mata abriu seu discurso com uma frase da educadora baiana, líder comunitária, militante da liberdade religiosa e porta-voz das religiões de matriz africana Makota Valdina. “Não sou descendente de escravos. Sou descendentes de seres humanos que foram escravizados”. Lídice também chamou a atenção para os números do Mapa da Violência, que mostram índices alarmantes de mortes de jovens negros e pobres, o que aponta para um processo de extermínio já apurado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Assassinato de Jovens, que a senadora presidiu. “Durante os trabalhos da CPI, constatamos que os jovens negros brasileiros são 77% das pessoas assassinadas anualmente no País, ou seja, um jovem negro é morto a cada 23 minutos”, alertou.
Homenageado, Lazzo Matumbi disse que é uma grande honra receber uma comenda que leva o nome de um grande líder que morreu lutando pela causa do povo negro e que deixou como ensinamento a resistência para que o Brasil possa – no futuro – se olhar no espelho, se enxergar miscigenado e respeitar suas etnias para se tornar uma grande nação que respeita as diferenças. Lazzo também declamou um poema para retratar o sofrimento do povo negro e pobre e soltou a voz numa canção afirmativa que emocionou a todos os presentes.
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